As coisas que eu não vi
Uma terça-feira na Vila Mariana, São Paulo. Fotografia documental de família.

Eu só descobri os rabiscos debaixo da mesa quando estava editando as fotos.
Na hora, minha atenção estava no Levi. Ele tinha se metido ali embaixo, explorando aquele pedaço da casa à sua maneira. Fotografei, continuei acompanhando as crianças e fui embora.
Os rabiscos estavam na imagem o tempo todo. Eu é que não tinha visto.
Fiquei curioso. Afinal, eu tinha passado algumas horas naquela casa justamente para prestar atenção.

A família tinha acabado de voltar de viagem. Samara e Danilo ainda tinham coisas para organizar. O quarto estava sendo pintado e as crianças pirulitando pela casa.


A aviação foi aparecendo aos poucos. Nos jogos, num livro que Alice fez questão de me mostrar, nos pequenos aviadores de pelúcia do quarto que o Danilo preparava para o Levi.
Era como se um pouco do mundo de Danilo tivesse encontrado seu lugar também nas brincadeiras dos filhos.
Naquele dia, Alice também voou. Sem precisar de avião.

Levi estava naquela fase em que participar das brincadeiras das irmãs significava, muitas vezes, desmontar o que elas estavam tentando construir.



Sara e Alice tinham seus esconderijos, suas invenções e maneiras muito particulares de ocupar a casa.

Danilo achou uma ótima ideia cheirar o chulé da Sara. Ela também achou.


Da Samara, fui guardando pequenos gestos. Um colo, uma história, dois pés que se encontram.




Em uma das fotos, Sara está com o pai no tapete. Mais atrás, Alice se ocupa de um livro. No sofá, Samara verifica a fralda de Levi.
Tudo na mesma fotografia.

Fiquei bastante tempo olhando para essa foto depois. Quantas histórias eles vão lembrar quando olharem para ela daqui a alguns anos?
Fui sendo apresentado, aos poucos, a livros, vestidos, brinquedos e até Lutero, o cachorro da família. Ele estava na casa da avó, mas apareceu numa foto no celular.

Os rabiscos, ninguém me mostrou.
Eu não sei quem os fez. Nem quando. Talvez ninguém mais se lembre.
Mas eles estavam lá.

E havia também a ovelhinha da Alice.
É com ela que Alice dorme todas as noites.
Não sei por quanto tempo ainda vai ser assim.
Naquela terça-feira, era.
